Chrysler ME Four-Twelve
No universo das super-máquinas costumamos ver associadas às estrelas marcas européias tradicionais. Algumas vezes, um ou outro fabricante também europeu de menos prestígio ou com modelos produtivos mais artesanais. Mais recentemente e, em muito menor escala, algum japonês ou americano tem se aventurado neste campo e, é justamente desta safra que surge mais um aspirante a esta galeria de carros dos sonhos. Mas para espanto e surpresa da maioria o mais novo candidato, nasce de uma marca sem tradição neste campo - a Chrysler.

É verdade que sua marca irmã - a Dodge - tenha em seu currículo a honra de ter dado vida ao mito Viper. Mas a Chrysler em si tem muito mais identificação com os grandes sedans familiares do que propriamente a construção de esportivos de altíssimo desempenho. Ao que parece o estigma vai cair por terra com a sua mais nova "criatura" - o Chrysler ME Four-Twelve!

Revelado ao mundo no NAIAS 2004 (North America International Auto Show), o novo carro da montadora americana constitui o primeiro produto a consolidar um benefício palpável da aquisição da Chrysler pela Daimler-Benz. O resultado da associação vem na forma de uma super-máquina que se tiver todos as suas qualidades confirmadas, poderá deixar para trás quase todas os integrantes deste seleto grupo. Ainda dizemos que seus atributos necessitam de confirmação, uma vez que o veículo apresentado é apenas um protótipo e diversas características técnicas precisam ser oficialmente medidas e homologadas.

A ficha técnica impressiona, mas muitos dos dados foram estipulados com base em simulações de computador. É verdade que são ensaios bastante realistas, baseados em estudos muito avançados e precisos, mas ainda assim não passam de simulações. No mundo real as coisas podem revelar-se um pouco diferentes.

Aliás, praticamente todo e qualquer detalhe do bólido nasceu como resultado de estudos em programas de computador, como as formas e linhas da carroceria, incluindo ângulos, tamanhos e proporções. Cada entrada de ar, curva e detalhe tem não apenas papel estético, como também funcional. Assim as tomadas de ar na lateral e à frente das caixas de roda traseiras captam ar para o motor e o sistema de freios. A grande abertura na frente do carro e sob o logo da empresa, tem a função de gerar fluxo de ar saindo pelas grandes aberturas no capô e passando sobre a carroceria, favorecendo o downforce. Com mesmo papel que estas, o desenho dos pára-lamas traseiros, e um aerofólio que é posicionado na mesma linha, mas que deixa escoar o fluxo por um canal esculpido na porção traseira-central da carroceria. A peça é articulada e comandada eletronicamente, gerando um downforce equivalente a cerca de 420 kgf a 300 km/h.

Os contornos e linhas gerais da carroceria não são exatamente o que se pode chamar de inovação e/ou estética incomparável, mas são suficientemente bonitos, atraentes e modernos, harmonizando-se em um conjunto equilibrado e condizente com sua proposta arrojada. Alguns detalhes encarregam-se por conferir um toque de exclusividade ao carro, como o conjunto ótico traseiro, ou o grande pára-brisas que também faz o papel de teto, estendendo-se até o compartimento do motor. Vincos, frisos e pequenos detalhes cromados, em quantidade e localização certas ajudam a conferir certo requinte ao modelo.

Por dentro, o ME Four-Twelve consegue também equilibrar os ingredientes, com doses precisas de luxo, modernidade e esportividade. Esta última vem da adoção de elementos em fibra de carbono, que pode ser vista como elemento estrutural dos bancos, por exemplo. Para revesti-los e à outros elementos, o couro napa. Para compor instrumentos e controles, alumínio polido. As formas e disposição dos instrumentos e acessórios, completam um aspecto moderno, fato evidente no contorno do volante. E é justamente analisando esta peça que somos levados a suspeitar que o maior espetáculo não está nem no design do carro, nem nos recursos empregados em seu interior.

Como tem sido usual em alguns dos mais velozes carros do planeta, este Chrysler faz uso de dois acionadores para mudanças das marchas no volante. As aletas comandam a troca de cada uma das 7 (SETE!) marchas da caixa de câmbio Ricardo, desenvolvida especialmente para o modelo, que também faz uso de um sistema de embreagem duplo em meio líquido. Este sistema de transmissão possibilita que as trocas possam ser feitas em 0.02 segundos, garantindo tração quase que continuamente às grandes rodas de 20 X 12,5 polegadas.

E para fazer jus a um sistema de transmissão como estes, em posição traseiro-central "repousa" um poderoso motor 12 cilindros quadri-turbo, que explica o seu nome: ME Four-Twelve. O motor inteiramente em alumínio, com 12 cilindros em "V" a 60º, com 6.0 litros de deslocamento é fornecido pela Mercedes-Benz e recebeu preparação da AMG. Além dos quatro turbos, o propulsor ganhou um sistema de admissão desenhado especialmente para facilitar o fluxo de ar, dois intercoolers, e um moderno sistema eletrônico de injeção, para produzir 850 cavalos a 5750 rpm e 117.3 kgfm de torque entre 2500 e 4500 rpm. Com exatos 1310 kg de peso, o ME dispõe da incrível relação peso/potência de 1.54 kg/cv!

O chassis tão leve e rígido quanto é possível, faz uso de uma estrutura central em fibra de carbono, com sub-chassis tubulares em aço cromo-molibdênio na frente e atrás. A suspensão é Double Wishbone com molas e amortecedores horizontais variáveis eletronicamente. Esta estrutura somada ao sistema de transmissão e ao poderoso motor deverão garantir ao carro da Chrysler o posto de uma das mais rápidas e velozes máquinas para "andar nas ruas". Pelas projeções feitas em computador, o ME Four-Twelve deverá acelerar aos 100 km/h em 2,9 segundos, pulverizando marcas de carros como o Ferrari Enzo Ferrari (3,6 s), o mitológico McLaren F1 (3,8 s), ou ainda o Tommy Kaira ZZII (3,3 s).

Além de uma aceleração assombrosa, todo o aparato tecnológico e a estrutura de construção do carro, favorecerão uma velocidade final igualmente surpreendente: 248 mph, ou exatos 399 km/h! Para conferir estabilidade e dirigibilidade sob estes regimes extremos, além do aerofólio articulado e dos túneis na frente da carroceria, o fundo moldado termina em difusores que controlam o fluxo de ar por baixo do veículo. Para permitir aderência adequada em curvas, aceleração ou frenagem, rodas de 19 polegadas na frente e 20 atrás, calçadas em pneus Michelin 265/35 ZR19 e 335/30 ZR 20, respectivamente. Para pará-lo, discos em um compósito de cerâmica e carbono, de 15 polegadas (381 mm), acionados por um conjunto de alumínio de seis pistões. Os discos favorecem o balanceamento do conjunto suspenso por serem 65% mais leves que os convencionais e ainda são menos suscetíveis à fadiga pelo uso.

Sem dúvida alguma o Chrysler ME Four-Twelve atende com folga todas as exigências necessárias para que um carro possa ingressar no seleto hall das super-máquinas. Somente será deixado de fora desta categoria, se quando de sua apresentação oficial para testes, a realidade mostrar números muito, mas muito diferentes dos divulgados até agora. Mesmo "descendo" ao patamar de desempenho de nomes como Ferrari Enzo, Lamborghini Murcielago ou Porsche Carrera GT, já será razão mais que suficiente para nos despertar a fascinação e a glória que só super-máquinas como estas são capazes!

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